Você sabe quem sou?

Sou quem sangra
e sangra ainda mais por ti
só pra que venhas a esse mundo.

Sou aquela menina boba que ama as bonecas,
que ainda sonha com príncipes
mas que já é assediada por aquele vizinho e até pelo tio!

Sou aquela que tem medo de passar naquele beco à noite
e dele não conseguir sair

Sou aquela que rebola até o chão e que te faz babar
mas sou também a sua esposa calada, amarrada pelo machismo opressor

“- Esposa minha jamais vai estar em um bar, quanto mais rebolar!”

Sou a segregada.

Você sabe quem sou?

Sou a funcionária que aguenta cantada, que sofre calada,
e ainda assim sou apontada como a que faz serviços para o patrão.
É claro, meu irmão, aqui aguentamos mais um crime sem solução.

Sou eu quem estudo e trabalho.
Mas, se por acaso, eu caso, não preciso mais de profissão,
Logo vem a sociedade mais uma vez impor
agora, instrumento reprodutor!

Sou eu que luto dia após dia para ter o direito de me satisfazer, e não mais a você.
Sou eu que luto mais ainda pra você entender: Eu não vim de você, você veio de mim!

Sou também a sua irmã, que não pode ser igual às suas amigas, logo elas que são “tão queridas”.

Sou a sua companheira
segregada e rotulada
recatada e do lar
que não pode jamais te questionar.

Sou sua mãe apanhada, gritada e escorraçada.

Sou quem mais sofre em todas as esferas
sou desacreditada
ser inferior, rotulada, apanhada.

Sou morta por quem mais me fez juras de amor, e sou mais um número nas estatísticas, e muitos ainda vão dizer: – Foi por amor.

E mesmo eu sendo tudo isso, não sou só isso.

Sou aquele cacto que suporta calor do verão e o frio do inverno, todas estações, e se permanece verde, te dando flor,

E eu sei que você sabe quem eu sou e o que não sou:

Não sou propriedade
Não sou sua
Não sou da sociedade
Não sou de quem quiser
e, sim, de quem eu quiser
Não sou do patrão, nem do meu irmão, não sou mero instrumento reprodutor!

Sou bela, mas não sou recatada, nem tampouco do lar, e ainda sei que você sabe quem eu sou:

Sou as lutas, as mortes, as vidas, sou os sutiãs queimados, sou a história me dando grito de liberdade, eu sou a resistência em personificação.

É isso mesmo, sou MULHER!

Nelma Dantas
Escritora na Página Floresça/Facebook
Colunista Portal Opinião